24 fevereiro 2016

VIDA - Parto Normal após 3 Cesáreas (VBA3C)

Oi gente, 
Vim trazer mais um relato de parto humanizado na série Vida do nosso blog. A leitora Suzy Rhoden nos encanta mais uma vez com a continuação de sua história maravilhosa de parto. Você pode ler sobre sua descoberta da gravidez aqui e sobre passar por uma gestação aos quase 40 anos aquiMuito amor, felicidade e superação envolvidos neste texto. Nosso blog sempre tem pedidos de relatos de VBA3C (Vaginal Birth After 3 C-sections - Parto Normal Após 3 Cesárias), esse relato é perfeito pela riqueza de detalhes. Com certeza vai ajudar muito a quem for passar pela mesma situação. Espero que vocês gostem. 

xoxo.

O Trabalho de Parto

“A voz de um anjo sussurrou no meu ouvidoE eu não duvido, já escuto os teus sinaisQue tu virias numa manhã de domingo...”
Alceu Valença


Foto: arquivo pessoal

Eram aproximadamente 2h da manhã do dia 27/12, domingo, quando voltaram as contrações. Estava disposta a ignorá-las, permaneci na cama. Mas, era impressão minha, ou o negócio estava violento? Claro que era impressão minha, fora avaliada horas atrás e não havia dilatação alguma. Forcei-me a ficar deitada, fui valente, resisti! Por uns 2 minutos, se isso, e pulei enlouquecida de dor da cama! Que era aquilo?! Pensei em chamar o marido, mas o pobrezinho não dormia há 3 noites também, e tudo fora  alarme falso. Passei a andar pela casa como um fantasma, ora no quarto, ora no banheiro, ora na sala; agachada, de quatro, sentada na bola de pilates, desabada sobre a bola; e aquela agonia não passava, não dava trégua.

Prometi a mim mesma que iria dormir, deitei. Mas deitada sentia como se estivessem me rasgando ao meio. Recorri Àquele que nunca me deixou desamparada: implorei ao Pai Celestial que me permitisse dormir, mesmo com dor, pois eu realmente precisava renovar minhas forças físicas. Então vivi um milagre, algo de que nunca esquecerei: assim que terminou uma contração, adormeci. Dormindo, percebi que começava a próxima contração, e meu corpo começava a despertar. Uma voz, porém, sussurrou em meu ouvido: aceita a dor que ela passa. Aceita! Entendi a orientação e cedi, me entreguei, deixei que a dor viesse e me tomasse completamente. E passou! A situação se repetiu por algum tempo, sendo que a voz em meus sonhos me orientava e eu atendia. A dor vinha, me dominava, e ia embora. E eu suportava, me aliava a ela e não despertava! Foi algo mágico, foi extraordinário, e foi tudo que eu precisava para enfrentar o que ainda viria pela frente.

Depois de dormir literalmente com a dor por algum tempo, não tenho a menor ideia de quanto em minutos ou horas, acordei e não aguentei, tive que levantar. Estava cada vez mais intenso. Algumas vezes chamei Jeff e pedi massagem nas costas. Ele atendia no piloto automático e voltava a dormir. Eu não insistia, só recorria a ele em caso extremo. Afinal, aquilo ia durar alguns dias ainda, melhor  acostumar de uma vez.

O dia começava a clarear quando fui para o chuveiro pela enésima vez, acho, e passei a gritar de tanta dor. Até então  estava mantendo a elegância, inspirando profundamente e vocalizando quando expirava. Mas na solidão daquele banheiro, soltei o verbo e chorei, gritando que não aguentava mais, ia enlouquecer ou morrer, mas não suportaria outra noite daquelas. Não havia anotado as contrações, mas a sensação era de que uma emendava na outra, sem tempo sequer para mudar de posição. Nos poucos instantes em que ainda conseguia raciocinar, questionava se aquela sensação não estaria fora de ordem, pois a partolândia não vinha lá no final, quase na hora do expulsivo?! Eu me rendia, entregava os pontos. Fim de linha.

Como num passe de mágica, mais uma vez,  tudo aliviou. Eram 7h da manhã de domingo, aproximadamente. Peguei o celular e escrevi o mais rápido que pude para Claudia e Thays,  antes que a sofrência retornasse . Disse para as duas que não aguentava mais. Ambas queriam informação, descrição, detalhes do que eu sentia, da frequência, duração, intervalos entre as contrações. E eu por acaso sabia? Havia perdido a noção de tempo, nem pensei em anotar, afinal, bastava de registrar pródromos né! Fui taxativa: se os sintomas não aliviassem, iria para o Conceição ter uma cesárea naquele mesmo dia. Pois sempre fui, em geral, resistente  a dor, mas reconhecia ter chegado ao meu limite.
Exatamente nesse ponto da conversa, o famoso líquido escorreu por minhas pernas. Transparente, cheirando a cloro, em grande quantidade. Fiquei em êxtase, pura felicidade! Pois, em 4 gestações, era a primeira vez em que a bolsa rompia espontaneamente!  

Sabia que, com a bolsa rompida, passava a ter prazo pra parir. Se as coisas não evoluíssem em poucas horas, viveria uma cesárea. Mas estava feliz que algo tinha acontecido e a intensa dor da madrugada não fora em vão. Sentia-me confiante. Afinal, a voz de um anjo havia sussurrado em meu ouvido, e aquela era uma bela manhã de domingo...

Avisei Thays sobre a bolsa, disse que iria para o Hospital Regina aguardar o desfecho. Lembramos que ela não poderia me acompanhar, o cadastro seria feito somente na manhã seguinte. Thays perguntou se eu preferia ir ao hospital público, onde haveria alguma chance de ela poder me acompanhar no pré parto. Lembrei da frustração que me perseguia desde a primeira gravidez, há 10 anos: 1 dedo de dilatação. Se chegasse ao hospital com bolsa rompida e mínima dilatação, meu destino seria um só: cesárea. Dependeria da boa vontade do plantonista, um desconhecido que não se arriscaria por minha causa. Não, eu não suportaria isso novamente. Queria minha equipe, o hospital de minha escolha, ser bem tratada. Decidi ir para o Regina, onde minha doula infelizmente não poderia entrar. Seríamos apenas  marido e eu, como tudo começou 40 semanas atrás. Estávamos preparados!

O Parto Normal Após 3 Cesáreas

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu.”
Isaías 9:2

Chegamos ao hospital por volta de 10h30, pouco antes da obstetra. Fui direto para o cardiotoco, tudo maravilhosamente bem com bebê. O exame também captava minhas contrações, que começavam a retornar. Marido e eu atentos, vibrando quando o aparelho alcançava as medidas mais altas, torcendo: sobe mais, sobe mais. Estranho torcer para sentir dor, mas naquele contexto era exatamente isso o que nos fazia felizes.

Guísella chegou, fez o toque e  sacudiu a cabeça com expressão de surpresa. Aqueles segundos pareceram eternos, pois ficou evidente que era 8 ou 80; permanecia com 1 dedo de dilatação, ou o trabalho de parto estava avançado. Fala, doutoraaaaa! 7 cm de dilatação, disse ela vibrando conosco! Ah, que alegria, quase chorei naquele momento. Quanta felicidade! Eu, a sem dilatação, lá estava, praticamente parindo! Profunda gratidão.

Lembrei-me de ter lido que a maternidade aproxima a mulher da divindade. Senti isso naquele momento. Senti-me sendo elevada. As promessas que meu Pai Celestial me havia feito de que teria meu filho por parto natural estavam se concretizando – Ele sempre cumpre Suas promessas!

A partir daí, foi pura diversão. Na bola de pilates, eu praticamente dançava. Estava sem minha playlist, porque sei lá onde foram parar o pen drive e meu celular com as músicas selecionadas, mas não precisava: notas musicais nasciam de mim, meu coração cantarolava!

Fui levada para a sala pré parto, onde usei o chuveiro livremente, a bola e a banqueta. Fiquei alguns instantes sozinha, enquanto marido cuidava da parte burocrática, mas estava bem, sabia as posições que mais proporcionavam alívio. Em determinado momento, de súbito veio uma contração intensa. Agachei apoiada na cama, sem conseguir falar. Queria Jef ou Thays ali comigo. Mas antes que me sentisse desamparada, vi Guísella se aproximar, agachar e me confortar com voz suave, ao mesmo tempo em que  massageava minhas costas com mãos que pareciam ter o calor do fogo. De repente, a dor se mesclava com amparo e amor. Aquela dor não era exatamente isso? A  passagem para que o amor se personificasse numa nova vida que chegava.

Naqueles instantes finais rumo a dilatação total, ao invés de ir quase à loucura como imaginava, sentia-me abraçada e acolhida pelo momento. Não havia violência obstétrica, não havia verticalidade na relação obstetra-paciente, ninguém me censurando por minhas escolhas, nem exigindo silêncio. Havia paz interna e externamente. Havia humanização no real sentido da palavra. Assim, nesse clima, dilatei dos 8 aos 10 cm e senti meu bebê avisando que chegava.

Eu estava na banqueta quando vieram os primeiros puxos, isto é, aquela vontade involuntária de fazer força. Era outro nível de dor, era a certeza de que meu Felipe estava ali, querendo sair para o mundo de amor que preparamos pra recebê-lo. Jeff chamou a médica, disse que estava nascendo, Guísella veio correndo. Convidou-nos para deslocarmos até outra sala, mas eu não queria ir, sentia o neném chegando e não queria sair de jeito nenhum de onde estava nem eu sei porquê (rsrs). A obstetra me avaliou e disse que ainda não havia coroado, teríamos tempo para andar até a sala.

Amparada por Jeff, cheguei a um local cuidadosamente preparado pra eu dar à luz em total segurança. Não era uma sala de parto normal, como eu imaginava que seria, mas nem percebi naquele momento. Mais tarde, entendi que estava no bloco cirúrgico, com mesa preparada para qualquer intervenção. Em meu braço, acesso para a eventualidade de precisar ser medicada às pressas. Várias pessoas na sala, dentre elas o obstetra Fabiano, responsável pela organização do local, motivo pelo qual eu mal o tinha visto até então: estava garantindo que meu parto fosse o mais seguro de todos. Aquelas pessoas compunham a equipe de enfermagem do hospital, caso evoluíssemos para uma cesárea. Tudo cuidadosamente preparado.

Se fiquei constrangida com toda aquela gente na sala? Eu sinceramente não enxergava ninguém, só queria saber de meu bebê, que estava vindo! Mas senti a vibração positiva daquela equipe, a torcida para que tudo corresse de acordo com meus sonhos mais íntimos.

Lembro de como me senti quando entrei no local: acolhida mais uma vez, respeitada. Fui levada até uma banqueta, posição com a qual já tinha me identificado e de certa forma escolhido para parir. Meu sonho mesmo era usar banheira, mas um vba3c me chamava à realidade, lembrando que a água retardaria a intervenção, caso fosse necessária. Escolhemos ser prudentes.

Jeff sentou-se em um banco atrás de mim, de onde me apoiava e fortalecia. Guísella a minha frente, sentada no chão, com o sorriso mais encorajador deste mundo! Como me fez bem aquele sorriso, cuja mensagem inequívoca era: você vai parir, confio integralmente em ti!

Também recordo do ambiente a meia luz e da música animada tocando ao fundo. Mas que música era mesmo? Não faço a menor ideia, embora na hora tenha adorado e pensado: que bom ouvir esse som! Alguém perguntou: quer que desligue a música? Respondi que não, de modo algum. Queria música, me fazia bem.

Os puxos continuavam, quando vinham eu me agarrava em Jeff e gritava a plenos pulmões. No intervalo entre eles, conversava e recebia orientação. 

Não sei quanto tempo ficamos nessa situação, o tempo inexiste para uma mulher vivendo o expulsivo. De repente, um desejo muito grande de fazer força e o bebê coroou. Estava esperando pelo círculo de fogo, mas essa sensação ficou para o bebê 5, pois não identifiquei a queimação sobre a qual havia lido. Ao invés disso, sentia a presença do bebê e a urgência em fazer força.

Porém, cadê minhas energias? Me sentia fraca diante do tamanho da missão, a cabecinha que estava coroada voltou! Precisei aguardar o próximo puxo e fazer força novamente, para que coroasse outra vez. Mas parecia tudo tão distante no tempo, como se estivéssemos há horas ali e meu neném entalado. Em algum momento, verbalizei que me sentia sem forças, não conseguiria. Fabiano, ao meu lado, estimulou: “ele está aqui, já está nascido! Vamos lá, você consegue!” Guísella conduziu minha mão até a cabecinha dele, senti uns fiapos de cabelos e aquilo me renovou!

Orei ao Senhor, pedi que Ele me ajudasse, proferindo algumas palavras em voz alta.  Lembro de ter pensado na Expiação do Salvador Jesus Cristo naquele momento de dor e agonia. Assim como Cristo padeceu para nos dar de presente a ressurreição e vida eterna, sentia-me padecendo por algo maior, pela vida que nasceria do sofrimento de um momento. Tudo, simplesmente tudo valia a pena!

Com tal sentimento, fiz a força mais comprida que consegui, mantendo o esforço até que Felipe veio à luz, lindo de viver! Meu mundo parou, o relógio congelou, as pessoas passaram a se mover em câmera lenta como se estivessem num outro plano, distantes de mim. Só tinha olhos e emoções para meu bebê, meu Felipe, que veio no mesmo instante para meus braços.

Se alguém me falasse em dor, que dor?! Tudo simplesmente desapareceu, transformou-se para sempre. Ao meu lado, Jeff compartilhava da minha emoção. Ele, que foi meu apoio o tempo inteiro, tanto emocional quanto fisicamente. Estávamos extasiados, admirando, cheirando e amando nossa cria! Juntos, em sintonia, na mesma inesquecível emoção, ocitocinados!

Felipe nasceu com uma circular de cordão, coisa que não atrapalha e nem impede em nada um parto normal – inclusive um parto atípico como o meu, após 3 cesáreas. Logo depois, nasceu a placenta. Tão rápido, que não senti qualquer contração, ela simplesmente veio seguindo o bebê. E era enorme a árvore que nutriu nosso garotinho por 40 semanas e 6 dias! Em poucos minutos, parou de pulsar o cordão e coube ao papai a honra de cortá-lo.

Soube então que eram apenas 13h52 quando nasceu Felipe, num expulsivo tranquilo e relativamente rápido. Pra mim, pareceu uma eternidade, mas o relógio contestou minhas sensações: tudo acontecera num ritmo sensacional.

O parto foi natural do início ao fim, sem nenhuma intervenção. Não houve indução de nenhum tipo. Não recebi e nem sequer pensei em pedir anestesia. Não fui submetida a episiotomia (aquele corte de rotina, totalmente desnecessário). Sofri pequena laceração, embora tenha realizado exercícios preventivos de fortalecimento do períneo, e recebi alguns pontos que em nada me atrapalharam, nem causaram dor posterior – nada que se compare ao desconforto causado pela episio ou cesárea, por exemplo.

O parto foi inteiramente meu e eu o vivi intensamente em cada detalhe. Trabalhava comigo o parceiro perfeito: meu bebê, no seu ritmo, no seu momento. Nossos corpos juntos, abrindo caminho. O papai nos amparando, para que não duvidássemos de nossa capacidade. Mostramos que mamãe sabe parir e bebê sabe nascer. Vivemos a travessia do útero para a vida fora dele da maneira mais digna possível, como todo bebê merece ser recebido neste mundo.

A amamentação foi iniciada no primeiro momento, no primeiro colo, mas bebê estava cansado do esforço e parecia querer mais descansar do que se alimentar. Isso não foi problema, logo depois mostrou que entendia bem do assunto e exigiria mamãe a sua completa disposição (rsrs).

Após eterno instante de carinho, reconhecimento e estabelecimento de vínculos, Felipe acompanhou papai para  pesagem e alguns outros procedimentos. Infelizmente, a pediatria seguiu os protocolos do hospital e assim nosso filho não foi dispensado do nitrato de prata, por exemplo. A falha foi nossa nesse quesito, pois não apresentamos plano de parto já que tínhamos equipe e consideramos que a mesma agiria de acordo com  atendimento humanizado, sem qualquer forma de violência. Ainda assim, Felipe logo retornou para mim e dos meus braços não mais saiu até nossa liberação do hospital.
Felipe Emanuel Rhoden nasceu com 3.275 kg, apgar 9 e 10, 52 cm e uma pinta charmosa na cabeça, pouco acima da testa. Comprido e magrelo, como seus outros irmãos quando nasceram. Já não havia vérnix em seu corpo, pois o moço amadureceu tanto quanto pode antes de dar sinais de nascimento: estava prontinho, madurinho, todo enrugadinho, a pele descascando. Fui consultada sobre o banho do bebê, se queria que fosse dado naquele momento e respondi que não. Eu o queria como nasceu, com seu cheiro de recém parido.

Foto: arquivo pessoal
Fomos para o quarto, eu carregando meu bebê nos braços. Aquilo era incrível pra mim, eu ainda estava processando o sentimento incomparável de ter conseguido viver meu vba3c!!! Sair de lá com meu filho nos braços, sorrindo, já alimentada e cheia de autonomia não tinha preço, fazia de mim uma mulher realizada na vida. Eu me sentia ótima, e mal cheguei ao quarto já estava andando de um lado para outro e cuidando de meu filho. Não precisava de ajuda para sair da cama, usar o banheiro, tomar banho. Nada em mim doía! Incrível a sensação de autonomia que o parto normal proporciona! Sei que nem todos os partos normais, inclusive os humanizados, tem desfecho tão satisfatório assim, então recebi tudo isso como recompensa pelas 38 semanas de incertezas que vivi. Me sentia realizada, genuinamente feliz.

Somente no quarto, Jeff e eu lembramos dos registros fotográficos: tarde demais! Não tínhamos fotógrafa conosco, mas havíamos levado a câmera. Nenhum de nós lembrou. Felizmente, alguém da equipe (provavelmente o obstetra Fabiano) fez algumas fotos de seu e do nosso celular. E isso é tudo que temos. Os momentos mais preciosos, portanto, não serão jamais compartilhados visualmente, mas se reproduzirão para sempre dentro de nossa mente e coração. Parto inesquecível, para lavar a alma sedenta que eu carregava!

Permanecemos no hospital pouco mais de 24h e, após avaliação, bebê e eu fomos liberados, ambos em excelentes condições. No local, fomos muito bem tratados e respeitados. Logo minha história ficou conhecida entre a equipe de enfermagem e todos me parabenizavam pela coragem de encarar um parto normal após 3 cesáreas. Eu, que havia sido discreta na chegada, saí alardeando a conquista, provando que muito da tradição obstétrica é mito e acabava de ser derrubado.

Cumpriu-se a promessa que recebi de anjos que me visitaram em sonhos e que, no momento em que mais precisei, vieram sussurrar em meu ouvido e nos auxiliar na travessia. Cumpriu-se também o sonho de Claudia, na tarde do dia 27/12/2015, mesmo dia em que ela celebrava o nascimento de sua caçula, parida em um vbac. Cumpriu-se um capítulo de minha existência, escrito com dor e amor, mas começava outro, de ativismo numa causa que me ganhou: pelo fim da violência obstétrica e das cesáreas eletivas contra a vontade da mulher. É possível escrever uma história diferente após 1, 2 ou até 3 cesáreas!

A Transformação

“Não existem limites para o que uma mulher com coração de mãe pode realizar. Mulheres dignas mudaram o curso da história e continuam a fazê-lo, e sua influência se espalhará e se multiplicará através das eternidades.”
Julie B. Beck

Sempre ouvi histórias de parto associadas à transformação e libertação. Tinha curiosidade em saber como se daria a minha história, se algo mudaria de verdade dentro de mim ou se aquilo era força de expressão. Chegou o meu momento!

A transformação, pra mim, assim como o empoderamento, não se deu apenas na hora do parto como num passe de mágica. Começou antes. Foi um processo. Fui me transformando conforme aprendia e entendia que aquilo fazia sentido, que havia respaldo científico, baseado em evidências. Meu pensamento foi mudando e, conforme eu mudava, meu companheiro se transformava também. Se o único benefício fosse a mudança para melhor em nosso casamento, já teria valido a pena. Refiro-me à parceria que começou com as massagens diárias nos pés inchados e se estendeu ao ápice da dor, quando Jeff me deu o suporte exato que eu precisava, tanto físico quanto emocional. Nos tornamos “um” no mesmo propósito, e então não houve quem nos convencesse de que não seria possível - embora muitos tenham tentado.

Transformei-me durante os 3 dias de dores, que suportei resignadamente. Precisava exercer paciência e aceitar que não sou senhora do tempo. Mas sou senhora de mim e poderia, sim, aguentar firme aqueles momentos preparatórios. Foi o que fiz. Não fossem os pródromos desta gestação, não saberia com certeza absoluta que meu primogênito nasceu durante as contrações de treinamento, esclarecendo porque na época não dilatei.
Libertei-me quando expurguei todos os meus fantasmas e enfrentei meus medos, sozinha na madrugada, sem saber que tinha entrado em trabalho de parto. Descobri a força que possuo, a capacidade fenomenal de resistir, não à dor que vinha me trazer meu maior presente, mas resistir ao medo de sentir dor que envolve toda mulher nas minhas circunstâncias. Dilatei 7 cm em poucas horas, tendo adquirido conhecimento suficiente pra comandar meu próprio corpo ao invés de bloqueá-lo. Aprendi a abraçar a dor e andar com ela, porque era ela que me guiava.

Por fim, renasci. Eu, que por 3 vezes havia celebrado o nascimento de meus filhos praticamente beijando as mãos dos médicos que os trouxeram ao mundo, desta vez não fui platéia que assiste ao maior espetáculo de sua vida imaginando o que acontece por trás das cortinas. Fui para o palco: gritei, chorei, dancei, sorri, me contorci, sofri, vivi! A história era minha e  exigi escrever lucidamente o desfecho dela! Coadjuvantes ali eram os médicos, a equipe, e sabiam disso, se alegravam nisso. Porque assim, evento fisiológico e familiar, os partos devem ser. Pela primeira vez pude nascer junto com meu filho, alcançando profundezas do que antes para mim era apenas superfície.
Alguns mitos caíram por terra com minha experiência:

 - Uma vez cesárea, sempre cesárea: Não! Eu pari depois de 3 cirurgias;

A mulher não pode entrar em trabalho de parto porque isso provoca a ruptura uterina: Pode sim, na maioria dos casos. Meu útero não rompeu. E, incrível, em nenhum momento durante o trabalho de parto temi por minha vida ou por Felipe, o sentimento era muito forte de que nossos corpos estavam preparados, sabiam o que fazer;

Circular de cordão é indicativo de cesárea: Não! Felipe nasceu com circular de cordão, que foi removida no nascimento, sem qualquer risco para o bebê;

Existe mulher sem dilatação: Não, existe mulher que ainda não entrou em trabalho de parto. Quando entrar, ela vai dilatar;

A mulher precisa obrigatoriamente de episio pra dar passagem pro bebê:Não! Muitas mulheres conseguem parir bebês enormes sem qualquer laceração, e mesmo quando lacera, geralmente a fissura é pequena e não causa prejuízos maiores a puérpera. Foi meu caso;

É arriscado ficar ‘sofrendo’ 3 dias em casa sozinha ou acompanhada apenas pela doula: Não é arriscado, porque tal sofrimento, em meu caso, se referiu aos pródromos e não ao trabalho ativo de parto. As dores nessa fase são totalmente suportáveis, visto serem apenas contrações de treinamento. Meu trabalho de parto não durou 4 dias e sim iniciou por volta de 2h da manhã do dia em que meu filho nasceu, portanto foram no máximo 12 h de trabalho ativo! Fui para o hospital na hora certa, já com dilatação suficiente para evitar qualquer forma de indução e diminuir os riscos de necessidade de intervenção;

O bebê estava em risco porque passou da hora: Não! Felipe não passou da hora, visto que a gestação poderia se estender seguramente até as 42 semanas. Estávamos apenas com 40 + 6, ele estava bem, não apresentava sofrimento fetal e não havia qualquer indício da presença de mecônio. Líquido amniótico abundante mantinha Felipe muito bem acomodado em meu ventre, sem pressa alguma para sua travessia.

A posição segura de parto é de litotomia (posição ginecológica): Segura para os médicos, não para a mulher, que sente muito mais dor deitada com as pernas abertas e elevadas! Para mim, permanecer deitada era insuportável até nas simples contrações de treinamento, quanto mais em trabalho de parto ativo! A posição vertical me pareceu muito mais confortável, utilizei a banqueta (espécie de cadeira com buraco no meio), alcançando expulsivo relativamente rápido e tranqüilo.

Esses são alguns, dentre os tantos mitos que o próprio relato vai se encarregando de desmistificar. Cada mulher que escolhe parir tem a chance de, ao seu modo, mudar o curso da história, pois exerce influência positiva sobre suas semelhantes que desejam um parto normal, mas não acreditam que poderão tê-lo. Muitas, a grande maioria de nós, veio ao mundo fisiologicamente capaz de gestar e parir e tem perfeitas condições de fazê-lo. Mas, assim como o corpo, a mente precisa estar preparada com instrução correta, fé e empoderamento. Não há sistema operante que limite uma mulher determinada que confia plenamente em seu Pai Celestial.

O Acerto de Contas

“E Cristo disse: Se tiverdes fé em mim, tereis poder para fazer tudo quanto me parecer conveniente.”
Morôni 7:33

Olhando para trás e revendo a sucessão de acontecimentos que levaram ao parto dos meus sonhos, observo que muitas pessoas foram tiradas de meu caminho pela providência divina. Foram aqueles que me disseram não, que viraram as costas quando solicitei acolhimento em meus anseios. Não estavam à altura da experiência que eu viveria, não mereciam participar de momento tão lindo e sublime de meu protagonismo.

Permaneceram, ou surgiram na hora exata, aqueles que nunca duvidaram, que olhavam pra mim e acreditavam: ela vai parir. Entendi que tal sintonia e vibração positiva é fundamental. Antes de tudo, eu precisava acreditar. Mas a equipe que me assistiria precisava também confiar num parto lindo e sem intervenções, como de fato aconteceu. Ana Lu, Thays, Luana, Guísella e Fabiano não chegaram ao acaso em minha vida. Foram preparados e escolhidos. Juntos, escrevemos um novo capítulo para a história de partos planejados no Rio Grande do Sul, incluindo um vba3c.

Mas, será que eu precisava passar por tudo que passei nas primeiras 38 semanas? Refiro-me a angústia que poderia ter abalado negativamente minha gestação. Provavelmente sim, precisava para aprender algumas verdades inestimáveis: posso escolher o protagonismo ao invés da vitimização, em qualquer circunstância, até na mais adversa e desfavorável! Posso manter a mente firme e mover o universo a meu favor quando não me deixo abalar por julgamentos e má vontade alheios. Posso contestar médicos quando estou munida de informação, conheço meu corpo, acompanho a evolução de meu bebê, e tenho motivos reais e não idealizados para crer em condições de parir sem intercorrências óbvias.

Mas será que eu merecia passar por tudo que passei? Não, eu não merecia. Foram 38 semanas amargas, de um pré natal sem referência. Em caso de intercorrência, não sabia a quem me reportar, pois simplesmente não havia obstetra fazendo meu acompanhamento! Certamente eu merecia ter sido acolhida, orientada e acompanhada.

Sinto-me na obrigação de relatar o cenário que encontrei em meu estado quando parti em busca do parto normal. É o cenário que outras mulheres na mesma situação encontrarão e, se não estiverem verdadeiramente determinadas, acabarão desistindo de algo que mudaria para sempre suas vidas! A verdade precisa ser escancarada, e esta é a hora, este relato é o lugar: não fui acolhida por aqueles que se colocam como alternativa ao sistema cesarista. Lamentavelmente, fui julgada e rejeitada por profissional que se proclama publicamente a serviço da humanização do atendimento a gestante.

A rejeição é um direito do profissional, que honestamente pode informar a gestante que o procura: “Sinto muito, mas seu caso significa riscos para o exercício de minha profissão. Não estou disposto a correr tal risco neste momento”. Porém, o julgamento e a falta de honestidade são inaceitáveis! Especialmente quando vem de alguém que tantas vezes criticou os médicos cesaristas por enganarem suas pacientes, levando-as a cesáreas eletivas.

Fui taxada de gestante não empoderada, e rapidamente descartada a fim de não causar estragos à reputação do doutor. Tão bom livrar-se das encrencas, não é, e assumir apenas casos de baixo risco. Tão fácil acolher mulheres em tais circunstâncias e proferir belos discursos a respeito da humanização do nascimento. Mas aquelas que mais precisam ser acolhidas em seus anseios, pois vivem sua ÚNICA  chance de parir, são simplesmente ignoradas. Que se entendam com seus sonhos e sentimentos, façam terapia!

Ocorre que a não empoderada aqui insistiu, incomodou, cutucou. Foi atrás de meio mundo pedindo ajuda. Ao invés de avaliar que, talvez, a pessoa estivesse mesmo determinada e merecia apoio, o que fez o profissional a serviço da humanização? Excluiu a encrenca da rede social, alertou colegas sobre o problema à vista e atrapalhou ainda mais a batalha que já era desleal sob muitos aspectos.

Para fechar os estragos com chave de ouro, questionou: por que tal obsessão pelo parto normal agora e não antes das 3 cesáreas? Ou seja, azar o seu se foi vítima de violência obstétrica em outras gestações e teve seus partos roubados, eu não tenho nada com isso, lavo minhas mãos. Agora é tarde. Claro que a pergunta não foi feita diretamente a mim, e sim através de terceiros, pois eu responderia com outra pergunta: por que o senhor realizou cesáreas eletivas, conforme se comprova em seu histórico, antes de descobrir a importância da humanização do atendimento à gestante? Pois é...

O mais frustrante dessa história toda é saber que tal profissional, habituado a oferecer duras críticas ao sistema obstétrico vigente, não teve a dignidade de apresentar-me sua opinião face a face, durante as consultas particulares que paguei para receber seu atendimento. Fez-me acreditar que sua agenda estava cheia, que não poderia me internar pelo plano, e uma série de outros empecilhos, especialmente preparados para meu caso delicado (e indesejado). Não seria mais honesto dizer-me francamente que recuava, que temia o desfecho de meu parto? Eu compreenderia, assim como compreendi as razões da médica que me escreveu, referindo ter ficado comovida com minha causa, mas não se sentir à vontade para ir contra os protocolos vigentes. Ela foi honesta. Ela me deu retorno. Ela foi humana.

Ele se livrou de mim.

Como em tudo há um propósito, a verdade veio à tona, documentada pelo próprio profissional. Registrou seus julgamentos e os motivos pelos quais não fazia questão de me atender. Deixava claro que não tinha a menor intenção de se arriscar por uma desconhecida. Fez isso novamente através de terceiros, sem um pingo de consideração. Cadê a hombridade que se espera de alguém que tem seu nome atrelado ao conceito de humanização? Mentia para si mesmo e sabia disso, escolheu manter a máscara. Infelizmente, coube a mim vir tirá-la publicamente.   

Não bastasse encontrar tal recepção (surpreendente!) entre os humanizados, descobri que parir é exclusividade de primípara ou de abastada por aqui. Primípara porque, sem histórico de cesáreas, consegue bom atendimento em (alguns) hospitais públicos da região. Abastada porque o atendimento é caro, inacessível a grande maioria das mulheres. Em meu caso, face à exigência de dois obstetras, o valor investido foi além de minhas possibilidades. Não fosse o empréstimo obtido com amiga, eu estaria amargando agora minha quarta cirurgia. Fiz sacrifícios pessoais para manter o desejo de um nascimento digno para Felipe.

Mas será que tal serviço humanizado deveria ser disponibilizado somente a quem pode pagar altas quantias? O que dizer para mulheres que pagam o convênio mês a mês, como eu, confiando que encontrarão respaldo quando surgir a necessidade? Nem obstetra, nem pediatra, tudo particular. Até quando esse abuso conosco, pagantes de planos de saúde?!

É... A frustração foi grande. Fiquei chocada com o que encontrei nos bastidores.

Felizmente, nem todos se preocupam em fazer bonito apenas sob a luz dos refletores. Há quem realmente viva a humanização como  prática diária. E eu tive a sorte de encontrar pessoas assim, já apresentadas neste relato. Sou grata a cada uma delas por mostrarem que é possível o ativismo discreto, aquele que não sente a necessidade de atrair todos os olhares sobre seus feitos. Por, mesmo distante dos holofotes, fazerem sua parte de maneira impecável. Fui assistida por profissionais assim. Para esses, meu aplauso e minha gratidão.

Que a crítica aqui oferecida não sirva de desestímulo para a gestante em busca de seu ideal de parto. É direito seu buscar e receber o melhor. Se houver certeza do que se quer e mesmo assim as portas continuarem fechadas, a resposta é uma só: aquela é a porta errada. Levante-se e vá atrás de outra. Bata, insista, cutuque, incomode, lute. Isso se chama empoderamento, começa na gestação (ou antes) e alcança seu ápice no trabalho de parto.

Se alguém disser que você não é empoderada, não perca tempo com esse profissional. É fraco e vai recuar. Não gaste seus argumentos, não é a hora de desperdiçar energias. Guarde-as para sambar logo adiante, como eu estou sambando agora: na cara do sistema cesarista e na hipocrisia do supostamente humanizado. EU CONSEGUI, EU PARI APÓS 3 CESÁREAS!!!

Suzy Rhoden

Nossos competentes médicos obstetras: Guísella de Latorre e Fabiano Candal Vasconcelos


Nossa querida enfermeira obstétrica: Luana Santos

3 comentários:

  1. Ótimo texto. É maravilhoso ver como os ensinamentos do evangelho nos ajuda em todas as coisas.

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  2. Texto perfeito👏👏👏👏👏👏👏👏

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